domingo, 16 de novembro de 2014

Vale a pena ler livros novos?

Com este título, Pacheco Pereira escreveu a sua crónica desta semana no Público.
Uma reflexão muito interessante sobre o que devemos (e podemos) ou não ler ao longo da vida..

Com a devida referência, deixo aqui o texto:

"Todas as vezes que lemos um livro, deixamos de ler outro. É mesmo assim, positivo e negativo, para os poucos milhares de livros que podemos ler, mesmo sendo grande leitores. Já uma vez fiz este cálculo e na melhor das hipóteses, numa vida de grande leitor, dificilmente se pode ultrapassar os 4000-5000 livros e já é contar por cima. Ler, quer dizer, ler mesmo, não consultar a badana, nem folhear o índice, nem ler a contracapa. E neste cálculo estão livros de poesia pequenos e grandes romances, uns dando para os outros o número de páginas e o tempo da leitura. 4000-5000 livros é para a Mensagem de Pessoa e para a Montanha Mágica de Thomas Mann.

Embora neste cálculo eu inclua todos os livros, ficção, poesia, ensaio, história, biografia, etc., há um problema que penso ser interessante colocar para os livros de criação, ficção, poesia, teatro e similares – vale a pena ler livros novos? Ou, dito de outra maneira, se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior? Recentemente um artigo de Tim Parks na New York Review of Books levanta esta questão, o que me leva a retomá-la, até porque já escrevi sobre ela há vários anos.

Já uma vez coloquei essa pergunta de modo biográfico, dizendo que, por regra, não lia nada que não tivesse aguentado dez, quinze anos, de “necessidade de leitura”. Isso provocou reacções muito negativas. Eu, se fosse autor de ficção contemporânea, não acharia graça nenhuma em ser substituído na leitura nem que fosse por Balzac ou Tolstoi. Compreendo bem as reacções, mas elas não iludem o problema: vale a pena ler livros novos de ficção, poesia, teatro, etc.? Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já testada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike? Sim, porque mesmo num cânone muito limitado, e tendo nós que ler outras coisas, sejam manuais escolares, sejam livros técnicos, sejam memórias, sejam livros de actualidade, o tempo não chega. É um problema que tem sentido colocar, porque, sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema. Tem de existir por isso argumentos a favor de ler o “novo” por testar e perder assim algo do antigo já testado.

Vejamos os argumentos. Deixemos de lado a história do autor fundamental, mas ignorado pelo seu tempo. Podia estar a deixar passar algo de muito importante apenas porque é do meu tempo e ninguém notou essa importância a não ser que seja lido agora. O autor ignorado é, em grande parte, um mito romântico, porque não há assim tantos casos de autores fundamentais, que tivessem passado despercebidos, nem que seja pela elite intelectual que depois os transporta para o cânone. Mas admitindo que há, e que eu com este critério o ignoraria, trata-se de uma excepção à regra, que deixa intocado o problema.

Outro argumento a favor de se ler “o que sai” é o argumento de Virginia Woolf que Parks cita, a possibilidade de ler de forma lustral, virgem, um autor que não transporta consigo o peso dos julgamentos do passado, e sobre o qual posso fazer um julgamento meu, “descobri-lo”. É um argumento que pode atrair os críticos literários, ou os que são profissionais da leitura crítica, mas não me entusiasma, porque o número de “descobertas” será naturalmente muito escasso em relação ao que tenho de ler, ou ao que deixo de ler. Este último aspecto é sempre para mim muito relevante, embora compreenda que ele pese mais num leitor velho do que num leitor novo.

Depois há um outro argumento, que é igualmente sério, que nos leva a perguntar: mas por que razão tenho de só ler clássicos, coisas a sério, literatura pura e dura, em vez de ler o que me apetece, romances light, literatura cor-de-rosa, livros de auto-ajuda, recordações de gente do jet-set, memórias do Cristiano Ronaldo, ou o livro do momento sobre o espantoso crime ocorrido em Freixo-de-Espada à Cinta? Ou não ler, que não é morte de homem.

Este argumento é imbatível, cada um pode ler o que lhe apetecer, a mais lúdica e ligeira das literaturas, e isso é também ler. Penso, aliás, que este “ler” comunica mais do que se pensa com a leitura criativa, nobre e “cultural”. Mas penso que este é um argumento forte no plano da liberdade individual, do gosto pela leitura, sem os constrangimentos que tem o intelectual em querer (ou ter) de encontrar na literatura… literatura. E a minha pergunta é uma típica pergunta de intelectual, elitista e minoritária, mas mesmo assim, insisto, com sentido: vale a pena ler livros novos?

O mais forte argumento a favor de ler livros novos é a perda, nessa não leitura, de muitos aspectos sobre a sensibilidade dos tempos de hoje que Homero, Dante, Shakespeare, Leopardi, ou Mann não podiam ter. O passado, queira-se ou não, até por ser passado, é mais “doméstico”, já acabou, não tem mais nada para dar, já sabemos o que aconteceu, precisamos de algo diferente, logo, precisamos de mais presente. Insisto que considero este o melhor argumento a favor de ler livros novos, mas também não me chega.

É um argumento sério, porque implica um confronto com a contemporaneidade que tem um elemento autobiográfico: eu também vivi esses tempos, logo, vejo-os de forma diferente, não leio da mesma maneira. A frase de Hartley sobre o “passado como um país estrangeiro” poderia também ser sobre o “presente” – nada é mais “estrangeiro”, até porque eu vivo lá.

Quando leio o livro de Coetzee, Disgrace (A Desgraça), eu percebo o drama e a culpabilidade dos brancos na África do Sul numa dimensão a que nunca chegaria sem o livro. E sobre a sombra de uma culpabilidade colectiva, que faz aceitar a violência criminal dos negros, não podia ser escrito antes do século XX com esta intensidade dramática e ao mesmo tempo soft, como se não fosse violência, mas um “estado”. Nem a literatura do Holocausto trata da mesma coisa, embora também com ela se possa fazer o mesmo exercício de indispensabilidade do presente que o livro de Coetzee permite.

O mesmo se passa na novela de Philip Roth The Dying Animal (O Animal Moribundo), um retrato único do desejo e da morte, que podia ser uma novela de Tchekov, mas não é. É outra coisa, há ali uma dimensão sobre a doença, sobre a devastação do corpo, sobre a idade, sobre os intelectuais, que só um judeu de Nova Jérsia podia ter escrito, no século XX. A descrição da doença é algo que os contemporâneos fazem de uma forma única, até porque a sua ecologia médica, hospitalar, subjectiva, não tem paralelo no passado. Não é a Dama das Camélias, nem a tuberculose no sanatório de Davos, é o cancro.

Estes exemplos são a favor de ler alguns livros “novos”, mas não são um argumento a favor de ler por sistema livros novos. E não me chega, porque não tenho tempo, nem agora, nem nunca. É como aquele argumento terminal da inevitabilidade dos nossos dias: “Não há dinheiro. Qual destas palavras não percebe?” Eu diria para os livros: “Não há tempo. Qual destas palavras não percebe?” E por isso escolho não ler, por regra, livros novos, o que significa que sou um ignorante muito especial."

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